O artigo “Biossegurança na assistência odontológica em ambiente hospitalar: como oferecer um atendimento seguro” foi elaborado por Profa Dra Wanessa Teixeira Bellissimo- Rodrigues e Profª Teresa Márcia Nascimento de Morais* para celebrar a 1ª Semana de Biossegurança em Odontologia da América Latina.

Agradecemos às duas pela contribuição e excelente artigo!

Liliana Junqueira de P.Donatelli

Teresa Márcia Nascimento de Morais* Especialista em Periodontia e Implantodontia - UNIFEB, Capacitação em Odontologia Hospitalar e LASER – USP.  foi Presidente do Departamento de Odontologia da AMIB (2008-2013) e  atualmente da SOPATI (2016-2018).Autora dos Livros: “CARDIOLOGIA E ODONTOLOGIA – Uma visão integrada.  “FUNDAMENTOS DA ODONTOLOGIA EM AMBIENTE HOSPITLAR”. Mestre em Clínica Odontológica Integrada pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo – USP

 

 

Biossegurança na assistência odontológica em ambiente hospitalar: como oferecer um atendimento seguro

 

O cirurgião-dentista no ambiente hospitalar

A inserção do cirurgião-dentista nas equipes multiprofissionais de assistência hospitalar vem crescendo em diversas regiões de nosso país proporcionando benefícios não só para a condição de saúde bucal, como também para o estado geral de saúde dos pacientes internados.

Esta crescente inserção se baseia no fato de que algumas enfermidades têm seu quadro clínico originado ou agravado pela íntima relação que estabelecem com a condição de saúde da cavidade bucal e sua microbiota. Isto pode ser observado, por exemplo, nos casos de pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV) e em algumas complicações clínicas em pacientes sob tratamento oncológico ou portadores de doenças cardíacas.

Entretanto, a assistência odontológica ao paciente hospitalizado não é isenta de riscos.  Se exercida em desacordo com as condutas de biossegurança recomendadas na literatura, os pacientes poderão atuar tanto como fontes de agentes infecciosos para os profissionais envolvidos em seu cuidado, como receptores desses agentes. Afim de evitar tal ocorrência, se faz necessário conhecimento sobre o assunto e a adoção de medidas preventivas por parte dos que desejam exercer sua atividade profissional no ambiente hospitalar

O papel da equipe auxiliar

Neste contexto, um aspecto importante a ser considerado é que o cicrurgião-dentista realize os atendimentos sempre com apoio de auxiliares, devidamente treinados, de modo a minimizar o risco de contaminação de materiais e equipamentos por fluidos biológicos oriundos dos pacientes.

O controle da dispersão de microrganismos é importante uma vez que se trata do atendimento a pacientes imunodeprimidos, portadores de doenças infectocontagiosas e de infecções multidrogarressistentes e uma contaminação cruzada pode resultar no agravamento de sua condição clínica ou mesmo levá-los à óbito.

O papel da higienização das mãos no controle e infecções

A higienização das mãos assume papel de relevância por se tratar de uma medida básica e fundamental na prevenção da transmissão cruzada de infecções. Sem ela, todas as demais medidas, por mais sofisticadas que sejam, tornam-se sem efeito. Adaptando-se para a prática odontológica hospitalar o conceito “My five moments for hand hygiene”, da Organização Mundial da Saúde (OMS), observa-se a necessidade de se higienizar as mãos em pelo menos cinco diferentes momentos:

 

Momento 1: Antes do primeiro contato com o paciente;

 

Momento 2: Anterior a qualquer intervenção odontológica clínica ou cirúrgica;

 

Momento 3: Após uma exposição das mãos a fluidos biológicos;

 

Momento 4: Após qualquer contato com o paciente;

 

Momento 5: Após contato com as imediações do paciente.

A higienização poderá ser realizada por meio de lavagem das mãos com água e sabonete líquido ou por meio da aplicação de formulação alcóolica. A higiene das mãos com formulação alcóolica é considerada o método preferencial na maioria das situações clínicas devido à sua maior eficácia microbiológica, maior praticidade (menor consumo de tempo, portabilidade) e menor irritabilidade da pele. Entretanto, não está indicada nas situações em que as mãos estiverem visivelmente sujas.

Barreiras impermeáveis – trocar sempre após contaminação

Outra medida que auxilia na redução da transmissão cruzada de agentes patogênicos é o emprego de barreiras impermeáveis. Recomenda-se sua utilização sobre os equipamentos e materiais cuja limpeza e desinfecção após o uso sejam dificultadas pela sua conformação espacial ou ainda por não serem retiráveis da unidade odontológica.

Para que tal medida seja efetiva, é necessária a remoção das barreiras contaminadas durante o atendimento, desinfecção dos itens e recolocação de barreiras limpas.

Esterilização das peças de mão é fundamental a cada paciente

Ainda neste sentido, é importante a esterilização, após cada atendimento, das peças-de-mão (alta-rotação, baixa-rotação e peça reta). A realização de desinfecção externa destes itens com agentes químicos não é efetiva do ponto de vista do risco biológico sendo, portanto, insuficiente para garantir segurança no atendimento odontológico subsequente.

O uso de EPI

Com relação ao uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), recomenda-se que as pessoas envolvidas no cuidado direto com o paciente estejam paramentadas com máscara cirúrgica tripla, luvas, óculos de proteção, gorro e avental de mangas longas. Deve-se ressaltar que durante o atendimento a pacientes portadores de doenças transmitidas por aerossol, como a tuberculose pulmonar, é necessário o uso de máscara do tipo N95.

O avental utilizado no ambiente hospitalar deverá ser aquele fornecido pela instituição. O jaleco de uso pessoal não deverá ser usado para essa finalidade.

Imunização

Cotidianamente os profissionais que atuam em ambiente hospitalar se expõem direta ou indiretamente aos mais diversos microrganismos capazes de gerar quadros infecciosos. Também é preciso considerar a possibilidade destes profissionais se tornarem fontes desses patógenos e os disseminarem em meio intra e extra-hospitalar.

Vale lembrar que alguns desses patógenos podem estar relacionados a doenças passíveis de prevenção por imunização. Assim sendo, é oportuno ressaltar a importância da imunização do cirurgião-dentista e de todos os profissionais que prestam serviços em ambiente hospitalar, conforme recomendação do Ministério da Saúde (MS).

Trabalho em equipe

Se por um lado muitos são os desafios para tornar a assistência odontológica em ambiente hospitalar segura, maiores são os recursos para alcançá-la. A responsabilidade sobre importantes aspectos da biossegurança pode ser compartilhada com serviços como o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) e Central de Materiais e Esterilização (CME).

Entre as atuações da CCIH destacam-se a prevenção da transmissão de doenças infectocontagiosas, padronização de procedimentos de limpeza e desinfecção e otimização do uso de antimicrobianos tópicos e sistêmicos. Enquanto a CME se ocupa dos aspectos referentes ao reprocessamento dos artigos utilizados durante os atendimentos.

Além disso, o fato do cirurgião-dentista estar inserido em uma equipe multiprofissional, composta por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos de enfermagem, entre outros, permite o intercâmbio de conhecimento e cooperação mútua.

Conclusão

A inserção do cirurgião-dentista nas equipes hospitalares de assistência à saúde pode contribuir para a promoção e recuperação da saúde dos pacientes internados. Entretanto, sua prática deverá ser realizada em conformidade com normas de biossegurança preconizadas na literatura.

Referências

 

Morais TMN, Silva A, Avi ALRO et al. A Importância da Atuação Odontológica em Pacientes Internados em Unidade de Terapia Intensiva. Rev Bras Ter Intensiva2006; 18(4):412-417.

 

Bellissimo-Rodrigues F, Bellissimo-Rodrigues WT. Ventilator-associated pneumonia and oral health. Rev Soc Bras Med Trop 2012; 45(5):543-544.

 

Bellissimo-Rodrigues WT, Menegueti MG, Gaspar GG et al. Effectiveness of a dental care intervention in the prevention of lower respiratory tract nosocomial infections among intensive care patients: a randomized clinical trial.Infect Control Hosp Epidemiol 2014; 35(11):1342-1348.

 

Bellissimo-Rodrigues WT, Menegueti MG, Gaspar GG et al. Is it necessary to have a dentist within an intensive care unit team? Report of a randomized clinical trial. International Dental Journal 2018 – in press.

 

Munro CL, Grap MJ. Oral health and care in the intensive care unit: state of the science.Am J Crit Care 2004; 13(1):25-34.

 

Heo SM, Haase EM, Lesse AJ et al. Genetic relationships between respiratory pathogens isolated from dental plaque and bronchoalveolar lavage fluid from patients in the intensive care unit undergoing mechanical ventilation. Clin Infect Dis2008; 47(12):1562-1570.

 

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Redd JT, Baumbach J, Kohn W et al. Patient-to-patient transmission of hepatitis B virus associated with oral surgery. J Infect Dis.2007; 195(9):1311-1314.

 

Checchi L, Montebugnoli L, Samaritani S. Contamination of the turbine air chamber: a risk of cross-infection. J Clin Periodontol 1998; 25:607-611.

 

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WHO guidelines on hand hygiene in health care: first global patient safety challenge: clean care is safer care. Geneva, Switzerland: World Health Organization, Patient Safety; 2009.

 

Calendário de vacinação nacional. Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/jpg/2018/janeiro/30/calendario-vacinal-2018.jpg.
Autor

Bióloga, Mestre em Saúde Coletiva, Coordenadora do Projeto Biossegurança em Odontologia, e mais recentemente do Projeto Biossegurança Beauty& Body Art, ambos patrocinados pela Cristófoli. Já ministrou mais de 500 palestras sobre o tema Biossegurança em Saúde e participa ativamente de entidades dedicadas ao Controle de Infecção em Saúde e Interesse à Saúde. É consultora em Biossegurança em Saúde da Cristófoli.

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