O artigo: “Normas de Biossegurança para Fibrina Leucoplaquetária Autóloga L-PRF em Odontologia” foi especialmente escrito para O Blog Biossegurança para celebrar a 1ª Semana de Biossegurança em Odontologia da América Latina” Por:

1-Conceitos

O mais recente desenvolvimento dos agregados plaquetários é conhecido como fibrina rica em plaquetas e leucócitos (L-PRF), fibrina rica em plaquetas de Choukron (Choukron’s PRF) ou apenas fibrina rica em plaquetas (PRF). Neste protocolo, desenvolvido na França, é realizada uma punção venosa e o sangue é coletado em tubos de vácuo de 10 ml, e sem adição de nenhum anticoagulante, imediatamente uma única centrifugação é realizada a 2.700 rpm, aproximadamente 400 g de força, por 12 minutos.

O contato do sangue com o tubo de ensaio inicia a cascata de coagulação. A polimerização lenta da rede de fibrina, durante a centrifugação para a produção de L-PRF, gera uma rede de fibrina muito similar ao coágulo natural, fato esse que favorece a migração e a proliferação celular, o que melhora o processo de angiogênese e a reparação.

Teremos, portanto, uma matriz de fibrina autológa constituída por leucócitos, plaquetas, fatores de crescimento e células mesenquimais indiferenciadas. A fibrina vai atuar em quatro fases fundamentais do processo de reparação: angiogênese, controle imunológico, liberação de fatores de crescimento e células mesenquimais indiferenciadas, atém de servir como uma cobertura e arcabouço para migração epitelial.

2-Indicações da Fibrina Leucoplaquetária Autóloga L-PRF em Odontologia

Dentre as principais aplicações clínicas, destacam-se:

  • Coadjuvante em regeneração tecidual guiada (RTG), em especial por sua atividade angiogênica;
  • Cobertura do leito de feridas cirúrgicas: que devido a sua densidade natural, permite que seja suturada;
  • Obliteração de rupturas da membrana sinusal em cirurgias de enxerto de seio maxilar;
  • Aglutinação de biomateriais particulados: que otimiza os processos de angiogênese no leito do enxerto;
  • Em alvéolos pós-exodontia:Sob a forma de membranas, para que se mantenha volume adequado de osso , diminuindo também as características inflamatórias locais. Haverá um aperfeiçoamento na formação do coágulo sanguíneo , de forma a melhorar e acelerar o processo de cicatrização.
  • Tratamento da Osteonecrose mandibular induzida por Bisfosfonatos
    Imagem Maria Claudia V. Guimarães e Alssandro Perrut
Pós_exodontias – Imagem: Maria Claudia Guimarães e Alessandro Perrut

 

 

Regeneração Tecidual guiada (RTG)

 

 

 

 3 – Legislação – Resolução 158/2015- CFO:

O termo “agregados plaquetários autólogos não transfusionais” esclarece o caráter autólogo e não transfusional dos produtos obtidos a partir do sangue para uso na Odontologia. Os agregados sanguíneos não são chamados de hemoderivados na prática odontológica, para evitar conflitos conceituais com a área médica de hemoterapia e o uso transfusional do sangue (Ministério da Saúde – Portaria 2712/2013).

A Resolução 158/2015 garante que o cirurgião-dentista devidamente habilitado está apto a realizar a venopunção, sem necessidade de subordinação a outros profissionais da área de saúde.
A obtenção de L-PRF em consultório ou centro cirúrgico está assegurada na legislação, por se tratar de um método em sistema fechado, com biossegurança preservada.

4- Recomendações de Biossegurança durante a Venopunção:

4.1-Torniquete

Aplicar o torniquete que deverá ser de uso único e livre de látex, posicionando o laço para cima a fim de evitar contaminação. Deverá ser colocado de 7,5 a 10,0 cm acima do local da punção, para evitar a contaminação do local.

4.2- Antissepsia da pele

Realizada no local da punção, usada para prevenir a contaminação direta do paciente e da amostra. O antisséptico escolhido deve ser eficaz, ter ação rápida, ser de baixa causticidade e hipoalergênico para pele e mucosa. O álcool a 70% é bastante utilizado e atua contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, tendo boa atividade contra Mycobactyerium tuberculosis , fungos e vírus, além de ter menor custo. Poderão também ser usados para a antissepsia produtos como álcool isopropílico a 70% , iodeto de Povidona 1 a 10% ou gluconato de clorexedina a 2%.

Técnica para Antissepsia da pele

Recomenda-se usar gaze umedecida com solução de álcool isopropílico ou etílico na concentração de 70%, comercialmente preparado e limpar o local com movimento circular do centro para fora. Permitir a secagem por trinta segundos para prevenir hemólise da amostra e reduzir a sensação de ardência na venopunção. Não tocar novamente na região após anti-sepsia. Se a venopunção for difícil de ser obtida e a veia precisar ser palpada novamente para efetuar a coleta, o local escolhido deverá ser limpo novamente.

Proceder a higienização adequada das mãos com água e sabão e fricção de álcool gel a 70% e realizar o calçamento das luvas que podem ser as luvas descartáveis de procedimento confeccionadas em látex, vinil, polietileno ou nitrila .É obrigatório o uso de Equipamentos de Proteção Individual.

Mais cuidados:

Não usar o torniquete continuamente por mais de um minuto. Trocar o torniquete sempre que houver suspeita de contaminação.

A possibilidade do desenvolvimento de um processo infeccioso no local da venopunção, embora rara, não deve ser desprezada.
A antissepsia deve ser bem executada e a área preparada para a punção não deve ser tocada após este processo.
O intervalo entre a remoção do protetor de agulha e o ato da venopunção deve ser o menor possível.

O curativo adesivo deve ser aberto somente no momento da aplicação na pele do paciente e mantido por pelo menos 15 minutos após a coleta.
A principal forma de transmissão de agentes infecciosos na coleta se dá por contato. O contato pode ser direto (respingos de materiais biológicos que atingem pele e mucosas, acidentes perfuro-cortantes ,etc) ou indireto (contato da pele com superfícies contaminadas, contato da mão contaminada com mucosas ou pele que não esteja intacta).

A outra forma de transmissão possível é a inalação de aerossóis. A formação de aerossóis também pode ocorrer durante a preparação das amostras.

4.4 Escalpes:

Os escalpes são dispositivos usados para coleta múltipla de sangue a vácuo e alguns possuem dispositivos de segurança, que ao término da punção, recobrem ou recolhem a agulha, protegendo de uma contaminação por acidente perfuro-cortante. (ex. Escalpes de Segurança Push Button – BD Vacutainer Push Button) – NR 32.

4.5 – Tubos para coleta de sangue a vácuo

  • A coleta de sangue a vácuo é um procedimento seguro e prático. Consiste num dispositivo que permite a aspiração do sangue diretamente na veia, através de vácuo utilizando uma agulha de duas pontas que se conecta diretamente ao tubo de análise, constituindo o sistema para coleta de sangue.
  • São de uso único, devem ter seu interior estéril e possuir vácuo. 
Verificar se o produto está devidamente registrado na ANVISA e se é fabricado de acordo com as Boas Práticas de 
Fabricação estabelecidas pela ANVISA e/ou por outros padrões internacionais como ISO 6710.2, CLS; Food and Drug Administration (FDA) e Comunidade Européia (CE). 
Importante também é verificar se o fabricante comprova a funcionalidade dos tubos, preferencialmente por meio de documentação científica.

5. Observar a NR 32 

Estabelece as diretrizes para as medidas de proteção e saúde dos trabalhadores dos serviços de saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e assistência à saúde em geral.
• Item 32.2.4.15 – São vedados o reencape e a desconexão manual de agulhas.
• Item 32.2.4.16 – Deve ser assegurado o uso de materiais perfurocortantes com dispositivo de segurança. Item 32.2.4.17.1 – Imunização ativa contra tétano, difteria, hepatite B e os estabelecidos no Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional – PCMSO -(NR 7)

6. Centrifugação dos Tubos e desinfecção das Centrífugas

  • Centrífugas devem ser submetidas periodicamente à manutenção preventiva, com calibração e verificação das condições metrológicas, para garantir correto funcionamento;
  • Certificar-se de que os tubos estejam corretamente encaixados na caçamba da centrífuga;
  • Um encaixe incompleto pode fazer com que a tampa do tubo se desprenda, ou que a parte superior do tubo fique fora da caçamba com risco de quebra do mesmo;
  • Ao final do dia, as caçambas e área de contato da centrífuga serão desinfetadas com hipoclorito de sódio a 1% .

7.  Recomendações após remoção dos tubos da Centrífuga

Os tubos são novamente colocados no suporte sobre o campo cirúrgico estéril e o cirurgião que irá proceder com o preparo do L-PRF deverá estar devidamente paramentado , usando EPI, luvas e aventais estéreis.

8- Descarte Seguro de Resíduos – RDC ANVISA – N. 222/2018

Grupo E : Envolve os materiais perfurocortantes. Recomenda-se descartar separadamente, imediatamente após o uso, em recipientes rígidos, resistentes à perfuração, ruptura e vazamentos, com tampa e devidamente identificados (Norma NBR 13853/97 da ABNT), sendo expressamente proibido o seu reaproveitamento. As agulhas descartáveis não devem ser novamente encapadas. O volume dos recipientes de acondicionamento deve ser compatível com a geração diária deste tipo de resíduo, sendo descartados quando o preenchimento atingir 2/3 de sua capacidade ou o nível de preenchimento ficar a 5 cm de distância da boca do recipiente. Além disso, devem estar identificados com símbolo 
internacional de risco biológico , acrescido da inscrição “PERFUROCORTANTE”.

Grupo A1 – As sobras de amostras de laboratório contendo sangue ou líquidos corpóreos, podem ser descartadas diretamente no sistema de coleta de esgotos, desde que atendam respectivamente as diretrizes estabelecidas pelos órgãos ambientais, gestores de recursos hídricos e de saneamento competente.

Parabéns e obrigada pelo excelente artigo!

Liliana Junqueira de P. Donatelli

Referências:

  1. Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)
  2. Conselho Federal de Odontologia – CFO – Resolução 158/2015
  3. Costa, André Lins C. Corrêa; Ramos Neto, Antonio da Silva; Neves, Daniel Marques; Silva, Frederico Goulart de O.; Simão,
    Guilherme Morum de Lima; “Características dos Agregados Plaquetários e Indicações da L-PRF na Cirurgia Oral”, Implant News 2012;9(4):519-26
  4. Costa,André Lins C. Corrêa; Neto, Antonio da Silva Ramos; Neves, Daniel Marques; Silva, Frederico Goulart de O.; Simão,Guilherme Morum de Lima; “Levantamento de seio maxilar com instalação simultânea de implante utilizando Fibrina Rica em Plaquetas e Leucócitos como único biomaterial: avaliação topográfica do ganho ósseo após seis meses”, Implant News 2014; 11(2): 213-22
  5. Dohan Ehrenfest DM; Pinto NR; Pereda A; Jiménez P; Corso MD; Kang BS; Nally M, Lanata N; Wang HL; Quirynen M; “The impact of the centrifugue characteristics and centrifugation protocols on the cell, grow factors, and fibrin architecture of a leukocyte- and platelet-rich fibrin (L-PRF) clot and membrane.”Platelets 2018 Mar;29(2):171-184
  6. Leão, Moira Pedroso; Oliveira, Leonel Alves ; “Concentrados sanguíneos”, INPerio 2016; 1(1): 174-7
  7. Maluf G; Caldas RJ; Silva Santos PS; Use of Leukocyte- and Platelet-Rich Fibrin in the Treatment of Medication-Related Osteonecrosis of the Jaws”; J Oral Maxillofac Surg. 2018 Jan;76(1):88-96
  8. Ministério da Saúde , Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)
  9. Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial para Coleta de Sangue Venoso – 2.ed. – 2010; Minha editora – Barueri -São Paulo- 2010 ; ISBN: 978-85-98416-94-6
  10. 10.Vieira, Fabrício Le Draper; Orem, Isabella Barros; Minozzo, Carla; Lavinas, Fabrício da Silva Pereira; Oliveira Jr, Nilton Gonçalves; Elias, Wallace Conceição; ”Utilização de Fibrina Leucoplaquetária Autóloga na Reparação de Perfuração Crítica da Membrana Sinusal”; INPerio 2016; 1(7): 1293-9
  11. 11. Vieira, Fabrício Le Draper; Silva, Rafaella Rodrigues; Minozzo, Carla; Vieira, Antonio Fábio; Oliveira, Leonel; Oliveira Jr, Nilton Gonçalves; Rodrigues, Carlos Roberto Teixeira; “Tratamento da Osteonecrose Mandibular Medicamentosa usando a Fibrina Leucoplaquetária Autóloga – dez meses de acompanhamento sem recidiva”; InPerio 2017;2(1):48-55

 

Autor

Bióloga, Mestre em Saúde Coletiva, Coordenadora do Projeto Biossegurança em Odontologia, e mais recentemente do Projeto Biossegurança Beauty& Body Art, ambos patrocinados pela Cristófoli. Já ministrou mais de 500 palestras sobre o tema Biossegurança em Saúde e participa ativamente de entidades dedicadas ao Controle de Infecção em Saúde e Interesse à Saúde. É consultora em Biossegurança em Saúde da Cristófoli.

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