Esse post:” Você sabe o que é uma doença emergente?” foi escrito para esclarecer os termos doenças emergentes e doenças reemergentes.

Você sabe o que é uma doença emergente?

Quando se usa o termo doença emergente, usualmente, refere-se  a uma doença infecciosa.  É definido como  sendo uma doença nova ou que foi recentemente identificada (ou ainda uma doença conhecida cujos padrões  do microrganismo se modificaram) e, ao mesmo  tempo, com um repentino aparecimento de casos.

Um bom exemplo é vírus Ebola que causa a febre hemorrágica em humanos e foi inicialmente identificado em 1976, na África. O microrganismo só infectava animais, mas passou a afetar também os homens. Ocorreram vários ressurgimentos do vírus Ebola: 1979, 1995, 96, 2001, 2007 e o maior de todos em 2014 na África oriental. Recentemente (2018), foi identificado um novo surto no Congo.

Doenças Reemergentes

Doenças reemergente: é a doença infecciosa conhecida (e geralmente controlada), que por algum motivo mudou o seu padrão  epidemiológico, tendo como consequência, um aumento repentino de casos. Um bom exemplo é a tuberculose pós-HIV (mundialmente) e a ressurgência da dengue no Brasil.

O desenvolvimento tecnológico e as melhorias no atendimento à saúde proporcionaram o aumento da expectativa de vida e também o controle de muitas doenças infecciosas. Não há dúvida dos benefícios da descoberta dos antibióticos, mas o seu uso indiscriminado e muitas vezes, mal indicado, favoreceu a seleção de cepas de microrganismos resistentes.

O homem e os microrganismos fazem parte de um ecossistema complexo, intrincado e com múltiplas variáveis. Certas alterações podem criar condições que inibem ou beneficiam  a transmissão dos microrganismos entre os humanos, ou favorecem a seleção de populações mais virulentas, ou mais resistentes ao uso de medicamentos.

Veja alguns motivos que contribuem ou causam o aparecimento de doenças emergentes e reemergentes

Mudanças ecológicas: desmatamento, inundações, mudanças climáticas, secas inundações

Favorecem microrganismos associados a reservatórios animais ou a vetores.

  • Construção de barragem na Mauritânia-África proporcionou um ambiente ideal para proliferação de mosquitos transmissores do vírus Rift Valley em 1987. Em consequência, houve um surto de febre hemorrágica causada por esse vírus. Novas mudanças ecológicas favoreceram posteriormente a ressurgência dessa febre hemorrágica em outros locais na África.

Mudanças demográficas e de comportamento social: urbanização, institucionalização e aglomeração de pessoas (como por exemplo, prisões e creches); liberação de comportamento sexual, mudanças nas formas de lazer.

  • No caso de HIV a mudança de populações infectadas, para os grandes centros, favoreceu a transmissão do vírus.
  • Movimento antivacinal. Provocou a reemergencia de doenças como sarampo e polio.

Aumento do intercâmbio internacional de pessoas e de bens. Os microrganismos literalmente viajam com os portadores humanos ou se alojam em alimentos, animais e flores proporcionando a transmissão muito longe da sua origem.

  • Uma cepa muito agressiva de cólera (Vibrio cholera 139) viajou nas cebolas da Ásia para  Américas do Sul  e Central, causando mais de 10 mil mortes um ano depois de ter sido identificada  na Ásia em 1992.

Incorporação de novas tecnologias na atenção à saúde: Maior quantidade de procedimentos invasivos, uso de cateteres, sobrevida de pessoas imunossuprimidas, tratamentos que diminuem a competência imunológica como transplantes, quimioterapia, exames invasivos.

Manipulação e produção industrial de alimentos. Quando uma falha nas medidas de biossegurança ocorre as consequências tomam grandes proporções.

Interrupção de medidas de saúde pública: podem ocorrer por problemas específicos, como congelamento de tubulação de água potável, ou em zonas de guerra, desastres naturais como furacões.

TerrorismoProdução e liberação de microrganismos patogênicos proposital, com finalidade de criar pânico.

Exemplos da descoberta de microrganismos, doenças emergentes e o ano de identificação do agente

  • HIV-1/ AIDS- 1983-
  • Helicobacter pilori 1983 – gastrite/ úlceras – não havia associação com microrganismos
  • Hepatite C – 1989 – antes denominada como hepatite não A não B, por falta de conhecer o agente
  • Febre hemorrágica brasileira- Vírus Sabiá – 1994
  • Febre do Nilo Ocidental – Encefalite-1999
  • Coronavirus / SARS- 2003
  • Chikungunya –Poliartralgia- 2005
  • MERS- 2012

100 anos depois da Gripe Espanhola

Esse ano completa 100 anos da emergência do vírus Influenza de 1918, uma das mais letais cepas de gripe que assolou o planeta. Em artigo publicado no NEJM, “Politics and Pandemics”, Ron Klain*  cita que se fosse nos dias de hoje o vírus mataria cerca de 15 milhões de americanos. O estudo não explica o que teria acontecido com o resto do mundo, mas de toda forma é muita gente!  .

Mesmo com todas as conquistas da medicina e tecnologia,  A OMS (Organização Mundial da Saúde) prevê que uma pandemia global pode acontecer a qualquer momento. Aqui mesmo, no Blog Biossegurança, temos um post que aborda o tema:  Doença X – OMS reconhece ameaça global potencial

Ainda no seu artigo, o autor enumera os três principais motivos atuais que podem contribuir para a emergência de uma pandemia global:

Onda de xenofobia e isolamento das nações mais ricas
  •  retira a responsabilidade e comprometimento dos mada segurança mundial. Segundo ele, Europa e EUA  acreditam que simplesmente isolar-se dos países (e das pessoas) com doenças infecciosas seria suficiente para preveni-las. O autor argumenta que isso é mera ilusão. Dessa forma, falta financiamento para desenvolver rescursos para combater as ameaças que, no final das contas, afetará a todos.
Movimentos de resistência anti-científicos
  •  o exemplo mais contundente é o movimento antivacinal que na Europa e EUA. Mesmo com fortes evidências científicas a favor das vacinas, muitos pais estão proibindo que seus filhos recebam vacinas colocando em risco não só a saúde deles, mas também a saúde pública.
Mudanças climáticas
  • Mudanças relacionadas aos habitats da vida selvagem e do próprio homem, expondo-o a novos microrganismos e vetores.

Klain clama pelo comprometimento dos profissionais da saúde  e que eles devem se engajar politicamente para combater esses fatores tão alheios à medicina tradicional.

Ebola parece uma ameaça tão distante.  A Dengue nos trouxe mais humildade e nos lembrou que a ameaça é real,  o vírus Zika chegou ainda bateu mais fundo, ameaçando o futuro dos nossos bebês.

E nós, o que podemos fazer?

Não podemos eliminar todos os vetores e doenças! Entretanto, as nossas atitudes devem ser cuidadosamente pensadas.

Por exemplo:

  • Prescrevo (ou tomo) antibióticos com responsabilidade?
  • Utilizo recursos inteligentes para prevenção e controle de vetores?
  • Tomo as vacinas indicadas para o meu perfil etário/risco epidemiológico?
  • Como profissional da saúde tomo as medidas de biossegurança pertinentes à minha atividade? Faço cursos de atualização anualmente para saber quais medidas realmente preciso realizar?
  • Oriento as pessoas sob minha responsabilidade familiar/intelectual/trabalho sobre esses assuntos?

Simples, parece pouco, mas não é fácil e é muito importante!

Faça a sua parte!

Liliana Junqueira P. Donatelli

*J.D. Ron Klain foi designado pela Casa Branca como coordenador  politico e executivo da Resposta dos EUA à Epidemia de Ebola de 2014/2015 .

Autor

Bióloga, Mestre em Saúde Coletiva, Coordenadora do Projeto Biossegurança em Odontologia, e mais recentemente do Projeto Biossegurança Beauty& Body Art, ambos patrocinados pela Cristófoli. Já ministrou mais de 500 palestras sobre o tema Biossegurança em Saúde e participa ativamente de entidades dedicadas ao Controle de Infecção em Saúde e Interesse à Saúde. É consultora em Biossegurança em Saúde da Cristófoli.

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